segunda-feira, 18 de julho de 2016

RELATOS DA TERRA


     Na segunda aula de experiência do sensível fomos convidados a levar pra sala de aula uma porção de terra que tivesse um significado importante para nós e relatássemos para a turma. Minha terra escolhida foi retirada da Rua São Mateus, do Bairro Califórnia, da cidade de Itabuna, BA. Segue Meu Relato e o por quê dessa escolha.

     Nasci na cidade de Itabuna em 1987 e praticamente setenta por cento da minha vida foi no bairro da Califórnia, onde tive a oportunidade de conviver numa comunidade simples, com vizinhos muito próximos e preocupados uns com os outros. Minhas amizades foram únicas, quando nos desvencilhamos, já estávamos no final da adolescência (devido a namoros, casamentos, mudanças de município ou bairros).
      
      Wane, Cínthia Kelly, Valéria, Jamille e eu. Entre nós brigas, sinceridades, amor, alegrias, tristezas, competição, empatia, ciúmes, coações, mas acima de tudo amizade. Dentre muitas vivências que tive com esse grupo super feminino, a que me traz mais nostalgia, é o que nós tínhamos de comuns: Nenhuma de nós sabíamos andar de bicicleta e nenhuma de nós tínhamos uma bicicleta e isso nos moveu. Tudo começou quando uma das meninas (não me lembro quem) encontrou uma oficina de bicicletas, que também as alugava, acreditem, por cinquenta centavos a hora. Eeehh! Eu vivi o momento que cinquenta centavos eram muita coisa, e pra minha turma então, significava aprender a andar de bicicleta.


        Éramos cuidadosas umas com as outras, lembro que me sentia segura com as meninas, ficava uma de cada lado e outra atrás segurando no coxim, sabia que elas não me deixariam cair (na verdade na minha primeira queda eu já sabia pedalar muito bem). Às vezes a bicicleta não era compatível com meu tamanho, mas mesmo assim não desistia de montá-la, pedalava em pé, sem sentar no coxim, mas não deixava minha vez passar por motivo nenhum. E assim foi um final de semana após outro, era sagrado para o quinteto fantástico aprender a andar de bicicleta, até que finalmente todas nós havíamos aprendido.

        Não sei quanto tempo depois, mas o melhor ainda estava por acontecer. Em um início de noite estava em companhia de minha trupe, na porta da casa de uma delas, quando avistei meu pai chegando do trabalho com uma bicicleta (não era a bicicleta cargueira dele que utilizava no trabalho), meu coração foi na boca e meus olhos ficaram arregalados, corri ao encontro dele, e ainda com dúvida e medo da resposta, perguntei aos berros: De quem é essa bicicleta? Fiquei enlouquecida, a bicicleta era minha, a peguei de imediato e corri de volta para as meninas, que já estavam todas de pé fazendo algazarra com o ocorrido. Nesse dia fomos dormir muito tarde, a comemoração foi geral e as pedaladas intensas.
  
        A bicicleta não era nova, na verdade era bem usada, estava um pouco enferrujada e a tinta lilás com verde um pouco gasta, tinha o nome monark em branco na extensão do quadro, e pra mim era perfeita. Ela era mais do que minha, era nossa, a partir daquele dia não alugaríamos mais bicicleta, era apenas uma e dividíamos perfeitamente bem, acho que no fundo não tínhamos interesse em brincarmos sozinhas, afinal, não recordo em nenhum momento de brincar sozinha com minha bicicleta, não havia sentido.

        Outro dia presenciei uma cena, triste por sinal, que me fez lembrar essa fase de minha vida. Minha sobrinha de quatro anos chorou escandalosamente porque não queria deixar a criança da vizinha segurar a boneca dela, detalhe: minha sobrinha estava com outro brinquedo, mas não aceitou dividir justamente aquele que estava sobrando, jogado no chão e esquecido. O que estão ensinando as nossas crianças? Que tipo de adulto se tornará? Aprendi na minha infância que não há graça em brincar sozinha, a vida deve ser compartilhada, afinal, quantos tiveram uma aprendizagem como esta ao montar uma bicicleta? Sempre serei grata as minhas meninas pela excelente experiência e ótima lembrança.

         Após os relatos sensitivos de todos, fomos convidados por nosso colega indígena a dançar o TORÉ, uma dança típica e tradicional de seu povo em volta da terra que todos trouxeram, o que tornou o momento animador e de conhecimento mútuo.






       

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